Terceiro lugar no ranking nacional de para-atletas, o auxiliar administrativo Wide Tomaz Dias, 31 anos, parece disputar uma corrida rústica diariamente em Salvador. Nem sempre ele sai vitorioso.
Nas últimas semanas, por exemplo, quando a cidade foi atingida por sucessivos temporais, ele protagonizou um drama que os portadores de deficiências físicas costumam enfrentar na cidade: ao tentar atravessar uma rua na área do Comércio, caiu num buraco com cadeira de rodas e tudo.
Integrante de um contingente estimado em aproximadamente 450 mil pessoas com as mais diversas necessidades especiais, Wide constata a cada momento o que está literalmente à vista de quem pode enxergar: “Vivemos numa cidade excludente”, resume.
Mas não é só no Comércio, tradicional centro financeiro da cidade, que os deficientes físicos enfrentam dificuldades. Tente andar numa cadeira de rodas pelos passeios de grandes vias como as avenidas Sete de Setembro (centro), DomJoão VI (Brotas), Cardeal da Silva (Federação) ou Ademar de Barros (Ondina).
Calçamento precário, degraus, espaço ocupado por ambulantes e carros estacionados, são apenas alguns dos obstáculos a transpor. É o que testemunha a dona de casa Ivanete Oliveira, residente no bairro do Acupe (Brotas). Para chegar à sede da Unidade de Gratuidade para Pessoas com Deficiência, a aproximadamente 1km, leva quase uma hora.
Portadora de defeito congênito, que lhe encurta uma das pernas, ela anda com o apoio de uma muleta. Qualquer caminhada vira uma maratona. “Os passeios estão quebrados, cheios de degraus e ainda param carro em cima”, reclama.
Fazendo coro às queixas de Ivanete, o servente de pedreiro Carlos Alberto Lima, 43, relata sua dificuldade para andar em Salvador. Há pouco mais de um ano, ele sofreu uma queda e fraturou uma das pernas.
Desde então, usa um par de muletas e entrou para o time das pessoas com mobilidade reduzida. “Agora, vejo o que um deficiente sofre para andar pela cidade”, reflete. “Nunca pensei que aqui tinha tanto buraco...”, surpreende- se.
Problema crônico
Passeio sem manutenção é só um aspecto da infraestrutura urbana que dificulta a mobilidade do deficiente físico, analisa Cledson Cruz, 36, presidente da Associação Municipal e Metropolitana das Pessoas com Deficiências (Ampdef).
“Quando chove, a maioria dos cadeirantes nem consegue sair de casa”, revela. “Não temos condições de enfrentar ruas alagadas e corremos maiores riscos que as outras pessoas”, pontua.
Trata-se de uma situação crônica, testemunha Luiza Câmera, 65, presidente da Associação Baiana de Deficientes Físicos (Abadef), uma das entidades pioneiras na defesa dos direitos desse segmento.
“Há 30 anos, quando iniciei o trabalho, já chamava a atenção para a exclusão do portador de deficiência em Salvador”, lembra. “E olha que, nessa época, nemse falavaem acessibilidade”, arremata.
Após três décadas de luta, ela percebe alguns avanços, principalmente associados à legislação, mas considera as iniciativas ainda muito tímidas. Essa sensação é compartilhada pela arquiteta e urbanista Islândia Costa, 40, integrante da Vida Brasil, organização não-governamental que, em 1999, lançou o projeto Salvador, Uma Cidade Deficiente?.
Como sugere o título, a iniciativa trazia à tona a discussão quanto às dificuldades e possíveis soluções para o ir e vir das pessoas com mobilidade reduzida na capital baiana.
“A gente percebe que existe algum avanço, mas a acessibilidade aqui ainda está longe do ideal”, confirma. Estudiosa do tema, que desenvolveu em sua tese de mestrado pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), Islândia acredita que a mudança na cidade tem que começar no ambiente acadêmico: “É preciso repensar os currículos das faculdades de engenharia e arquitetura”.
É o que também pensa o para-atleta Wide, aquele que foi vencido pelos buracos no Comércio. Para ele, é fundamental dar visibilidade ao problema: “Se todos se unirem, a cidade vai ficar mais humana”, aposta.
(notícia publicada na edição impressa do dia 01/06/2009 do CORREIO)
05/06/2009