Bastou apenas um pequeno obstáculo, um degrau com menos de 10 cm , para que os alunos do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (UNIFOR) ‘sentissem’ as dificuldades cotidianas vivenciadas pelas pessoas com deficiência.
Na vivência, os participantes experimentaram ter uma limitação física e visual, utilizando vendas, bengalas e cadeiras de rodas. Sem exceção, todos afirmam que a partir dessa experiência passaram a ‘enxergar’ a problemática entorno da acessibilidade de uma outra maneira.
Vendados, os 18 alunos participantes da Oficina de Acessibilidade, nos dias 20 e 21 de maio, tateavam as paredes e empunhavam suas bengalas pelas salas, corredores e áreas de convivência da UNIFOR chamando a atenção de todos que ali passavam. A maioria dos alunos demonstrava insegurança em se tornar “uma pessoa com deficiência”. Alguns ficaram muito receosos em atravessar as ruas sem enxergar e ouvindo o barulho dos carros se aproximando, assim, como subirem os degraus somente com a ajuda da bengala, outra dificuldade enfrentada por eles.
Em outro momento, os futuros psicólogos se depararam com o medo de cair com a cadeira de rodas, ou até mesmo de machucar alguém. Entre eles, a sensação de impotência por não conseguirem transpor os pequenos obstáculos era perceptível.
Num primeiro momento, a partir de uma análise histórica, foram abordadas as percepções sociais sobre a deficiência e como elas são determinantes para a inclusão/exclusão dessas pessoas na sociedade. Além de traçar um panorama sobre a deficiência no Brasil, viu-se também que o conceito de acessibilidade não abrange apenas as barreiras arquitetônicas, mas também as barreiras comunicacionais e atitudinais.
No segundo momento, foram repassadas várias dicas importantes de como guiar pessoas cegas e de como conduzir cadeirantes. Para isso, gestos que facilitam a comunicação entre cegos e guias foram ensinados. Além disso, o uso e cuidados com a cadeira de rodas foram repassados por Henrique Gurgel, cadeirante e aluno da universidade, e experimentado pelos acadêmicos.
Para Isaac Bastos, que revelou ter sentido mais dificuldade em conduzir uma pessoa cega do que ser conduzido, Jocelina Pereira, vice-presidente da Associação dos Cegos do Ceará e militante do MPcD, cega desde o nascimento, aconselhava: “agir com naturalidade, não ter medo, facilita muito a locomoção de uma pessoa cega”, diz.
Segundo Danilo Cavalcante, que tem baixa visão e que colaborou na oficina conduzindo a vivência, perguntar se a pessoa cega quer ajuda e de que maneira você pode ajudá-la deve ser a primeira coisa a ser feita. “E, não sair arrastando a pessoa cega de um lado para o outro”, adverte. “O diálogo inicial favorece a interação e a confiança imprescindíveis nesta relação de ajudado e ajudante”, enfatiza.
Para a estudante Marina Braga, é interessante saber como agir com pessoas com deficiência até para desmistificar, quebrar tabus, perceber que eles são pessoas iguais os outros, e não impotentes ou coitadinhos.
Na avaliação de Luciana Maia, coordenadora do Programa de Acessibilidade da Associação Vida Brasil Fortaleza, iniciativas desta natureza são fundamentais para o desenvolvimento de uma cultura inclusiva, que sirva de base para a construção de uma sociedade para todos e todas, que equipare as oportunidades e respeite as diferenças entre pessoas com e sem deficiência. “Para vislumbrar essa sociedade para todos é preciso envolver toda a sociedade e os estudantes universitários devem ser compreendidos como atores estratégicos desse processo”, reitera a coordenadora.
REALIDADE:
Diferentemente do faz-de-conta, as dificuldades reais enfrentadas pelas pessoas com deficiência são ainda maiores, sobretudo numa cidade como Fortaleza, e a maioria das cidades brasileiras, que não está preparada arquitetonicamente para que elas possam exercer o seu direito de Ir e Vir, e sua cidadania com segurança.
“Em geral, o que se vê no dia-a-dia são batentes muitos altos, buracos nas vias, bocas-de-lobo abertas, calçadas desniveladas, entre outros obstáculos que dificultam a vida das pessoas com deficiência”, diz Danilo Cavalcante. “O Brasil, em termos de Lei é muito avançado, não fica atrás dos países desenvolvidos, mas, infelizmente, na prática não é assim” lamenta.
EM TEMPO:
A oficina de Acessibilidade facilitada por Luciana Maia e Patrícia Oliveira, do Programa de Acessibilidade da Associação Vida Brasil, contou com a participação de Danilo Cavalcante e Jocelina Pereira, pessoas cegas que integram o Movimento das Pessoas com Deficiência (MPcD) e ainda, de Henrique Gurgel, cadeirante, estudante da UNIFOR e para-atleta de natação cearense. A Oficina constou da programação da XIV Semana de Psicologia e Direitos Humanos da UNIFOR.
08/06/2009