SOU BUSCAPÉ, SOU CIDADÃO!
O nascimento
Salvador, sábado de carnaval. O sol ainda está alto, e espalha sua luz nas cores pastéis dos casarões do Centro Histórico. O brilho não é o mesmo de qualquer outro dia: o ar está carregado de uma alegria latente, desses dias de carnaval em que a cidade se diz ainda capaz de surpreender qualquer um. “O que é isso?”, pergunta uma criança para sua mãe. Outros curiosos parecem fazer o mesmo questionamento. Parados, no canto do Largo do Pelourinho, em frente à Fundação Casa de Jorge Amado, eles olham, sorrindo, para o início da ladeira. Lá, bem em frente, centenas de pessoas agitam-se, correm, fazem barulho. Parece um exército de palhaços, todos com um nariz vermelho plantado bem no meio da cara. Mas atrás dos narizes de fato cômicos, percebe-se uma riqueza de pessoas, diferentes e iguais ao mesmo tempo, reunidas pelo objetivo de celebrar a brincadeira.
Na sua grande maioria, são crianças e adolescentes de todas as idades: rostos radiantes pintados, vestidos de camisa de palhaços, munidos de pequenos instrumentos pintados, chocalhos e caxixis, fantasias e adereços... Há um grupo de meninos e meninas carregando tambores, tamborins, xequerês e claves, se dispondo bem no meio da rua, e criando a maior sensação. Atrás, mais discretamente, uma dúzia de adultos ajeita seus instrumentos de sopro. Alguns jovens nem prestam atenção: em pequenos círculos, dialogam sem palavras, olho no olho, agitando sucessivamente mãos e dedos numa coreografia precisa e veloz, interrompida por gargalhadas e tapas calorosos. Enquanto isso, na frente, colados numa faixa, crianças pequenas se juntam e ensaiam uma canção. Há crianças de óculos, de trança, de dredlocks, outras carecas, outras com síndrome de down, crianças negras e brancas, em pé ou sentadas numa cadeira de roda, falando Libras ou português...
De repente, explodem cinco toques rápidos. À chamada dos surdos, respondem os repiniques, seguidos progressivamente por toda bateria de percussão, e por todos os foliões, ouvintes e surdos. O clima está carregado de uma energia vibrante e contagiante. A multidão é densa, se move e começa a pressionar a frente do cortejo... Alguns minutos depois, quando se junta o canto da banda de sopro, o bloco dos narizes vermelhos encontra sua alma. Na levada do Trenzinho Caipira de Villa Lobos, parte inexoravelmente para subida da ladeira do Pelô... Estamos no dia 21 de fevereiro de 1998, e o bloco Buscapé acabou de nascer...
Sou Buscapé
“Busca-pé é fogo de artifício que explode, produz a luz e vai em busca de alguém porque não quer ficar sozinho.
Nosso bloco é Buscapé porque é formado por crianças e adolescentes que também estão buscando companhia, solidariedade e união para poder contribuir com a sociedade e o desenvolvimento de seu país. Que querem e precisam conquistar seu espaço, seus direitos. Uns nasceram filhos de pais social e economicamente marginalizados, nos bairros de periferia, e nem sempre têm direito de sonhar. Outros, com deficiência física, mental ou sensorial, enfrentam barreiras ainda maiores para exercer sua cidadania e fazer projetos de vida. Todos se preparam para vida e para fazer sua parte na história da humanidade. Os meninos e as meninas do Buscapé buscam cidadania e direitos. Não buscam de táxi, de carro ou de avião, buscam a pé ou de cadeira de rodas”.
Essas palavras, presentes no primeiro folder do projeto, resumem a essência das reflexões que levaram à criação do Buscapé. A iniciativa partiu da associação Oimba (Oficina de Investigação Musical da Bahia) que convidou três organizações parceiras: a ONG Vida Brasil, voltada para direitos humanos e inclusão da pessoa com deficiência, a OAF (Organização de Auxílio Fraterno), um dos maiores centros em Salvador de formação profissionalizante para jovens em situação de risco, e o Espaço Cultural Alagados, um centro integrante da Fundação Cultural do Estado da Bahia, implantado no bairro dos Alagados. Reunidas periodicamente durante um período de seis meses antecedendo o primeiro desfile carnavalesco de 1998, as quatro instituições sócio-culturais, que atuavam em quatro cantos da cidade, debateram longamente a pertinência da proposta e a identidade do bloco.
O projeto respondia em primeiro lugar à real necessidade dos jovens que compunham o público das organizações. No período de férias, os projetos sociais e as escolas públicas estavam, e ainda estão, quase todos fechados e a vulnerabilidade das crianças e dos adolescentes aumenta: eles encontram-se trabalhando ou numa situação muito mais próxima da rua, sem direito a lazer e muito menos ao carnaval. Muitos deles afirmavam, no entanto, que seu maior sonho era desfilar num bloco no carnaval, a maior festa popular da Bahia. Mas esta festa era e ainda é cada vez mais excludente e privatizada, industrial e de massa... E cada vez menos, os blocos são o resultado do trabalho de construção coletiva de uma identidade. E muito menos de uma identidade plural: há blocos de “barões”, blocos afros e de índios, afoxés, um bloco de pessoas com deficiência... Os blocos de crianças e adolescentes, por sua vez, sempre cobraram entrada como quase todos os outros, e são compostos dos filhos das famílias de classes média e alta, na sua maioria brancas.
A proposta era apresentar um grupo carnavalesco diferente, de pessoas diferentes clamando por direitos e visibilidade na sociedade. Nas reuniões preparatórias até sugeriu-se o slogan para o projeto Buscapé: “bloco dos outros”. Mas um argumento prevaleceu: não se podia obrigar os jovens a endossar o qualificativo de diferente, quando se queria justamente incluí-los numa sociedade com todos os outros, e não diferencia-los. Em muitos aspectos, a afirmação do diferente confirma e fortalece a prevalência de um padrão. Ao contrário, o Buscapé seria um exemplo para a sociedade: um exemplo de um mundo baseado na diversidade, um mundo possível e real, com a inclusão e participação de pessoas com e sem deficiência, de crianças, adolescentes e jovens em situação de risco e outros em conflito com a lei, meninos e meninas de diversos bairros... Eles e elas tornariam-se os próprios atores e co-autores do bloco, através da confecção de alegorias, de instrumentos fabricados a partir de sucata e distribuídos para todos os foliões no dia do desfile, da composição de músicas, de coreografias...
Sem cordas de separação, aberto para todos e todas, animado por um espírito de solidariedade e uma consciência política e cidadã, o bloco Buscapé conseguiu no seu primeiro desfile chamar a atenção da imprensa e da opinião pública. Rompeu com a tendência da indústria cultural que domina o carnaval de Salvador e se distinguiu no meio de 200 outros blocos presentes na grande festa, conseguindo ampla cobertura nos canais locais de TV, nos jornais e nas rádios.
E não foi só na mídia que o Buscapé conseguiu conquistar um espaço, mas também no próprio bairro do Pelourinho. Declarado patrimônio histórico da humanidade pela Unesco em 1985, o Centro Histórico de Salvador mudou radicalmente seu perfil durante a década de 90. Mais de 70% da população, negra e pobre, foi expulsa para bairros periféricos da cidade. A maior parte dos imóveis tornou-se loja, galeria, bar, restaurante, pousada, banco, agência de viagem ou sede de associação... A creche fechou, mas as escolas públicas do bairro permaneceram cheias, já que as crianças das famílias deslocadas não acharam vaga nas escolas dos seus novos bairros de residência. A Oimba, que nasceu no Pelourinho antes da reforma, e quase foi expulsa, conseguiu mobilizar apoios nacionais e internacionais para comprar a sua casa, agora ponto de referência do Buscapé no carnaval. Continuou com o mesmo público, alimentando as mesmas parcerias com as escolas públicas, mas num novo contexto, transfigurado. Ali se desenvolveu uma estranha e explosiva convivência entre riqueza e pobreza, turismo e realidade social, fachadas de nobres casarões e barracos escondidos, policiais e meninos negros, turistas brancos e meninas negras...
É nesse contexto que se estruturou o carnaval do Pelourinho. Estando em plena formação de identidade, não deixaria de ser palco da disputa de espaços. E assim foi. O carnaval do Pelô, pensado inicialmente para atender às necessidades de um público de turistas em busca de uma festa mais tranqüila e menos violenta do que na avenida, com bandas instrumentais em vez de trios elétricos, sucumbiu às pressões e à simpatia, mesmo provocativa, dos foliões do bloco Buscapé. E num plano mais simbólico, não resistiu à legitimidade da sua presença, como filhos de famílias excluídas, no encontro das suas raízes históricas e em busca de um futuro justo. O Buscapé, assim, tornou-se o terceiro bloco do Pelourinho em número de foliões, atrás apenas do bloco afro Olodum e do Afoxé Filhos de Gandhi. De 400 participantes no primeiro desfile, o Buscapé passou a reunir cerca de 1000 pessoas nas ruas e praças do Centro Histórico, nas tardes dos sábados de carnaval.
Sou cidadão
Ao longo desses anos, o projeto Buscapé cresceu para além do carnaval e tem na festa, hoje, apenas uma de suas etapas. Durante todo o ano, parte das crianças e adolescentes presentes no carnaval participam de oficinas de dança, percussão, pandeiro e confecção de instrumentos, de forma complementar e em turno oposto à educação formal. Ocorre também uma série de ações como oficinas, seminários, visitas, palestras que visam promover a cidadania e a equidade nas dimensões de raça, gênero, deficiência, geração e orientação afetivo-sexual. Os jovens apresentam-se ainda em diversos eventos de movimentos sociais, universidades e escolas, dentro do seu bairro até fora da cidade, a exemplo da sua participação, notada, no primeiro Fórum Social Nordestino, em Recife, em novembro de 2004.
Com o intuito de assentar a identidade do projeto nas diversas comunidades de residência dos jovens, as oficinas foram progressivamente descentralizadas em diversos espaços da cidade, nas sedes das organizações parceiras, dos Alagados até Cajazeiras, passando pelo Pelourinho e pelo Largo de Roma. O Espaço Cultural Alagados, único órgão do poder público, foi substituído pelo Cama (Centro de Artes e Meio Ambiente), uma ONG do mesmo bairro. Novas instituições aderiram, voltadas para crianças em conflito com a lei, em situação de risco ou pessoas com deficiência: o projeto Ibeji, o CRPD (Centro de Reabilitação e Prevenção de Deficiências), das Obras Sociais Irmã Dulce, a organização Sementes do Amanhã e a Cáritas NE3.
No total, são oito instituições parceiras em 2005 nesse projeto de rede, regidas por acordos e por diversas instâncias de decisão. A Oimba e a Vida Brasil assumem a coordenação executiva do projeto: a Vida Brasil é mais especificamente voltada para coordenação pedagógica, administrativa e financeira do projeto, enquanto a Oimba é encarregada da sua direção artística. Mas as decisões de ordem estratégica ou mais política são debatidas em plenária pelo conjunto dos representantes das entidades, que se reúnem mensalmente. As crianças e adolescentes, por sua vez, participam de todo processo de planejamento, execução e avaliação das atividades, que acontecem periodicamente. Assim como no caso das relações entre as entidades, os jovens estabeleceram entre eles e com as organizações, acordos básicos de convivência, nos quais definiram suas responsabilidades e direitos. Para participar das atividades, precisam ser encaminhados por uma das organizações parceiras, estar matriculado em escola regular ou especial e participar de um encontro de socialização. Nas oficinas, recebem vales-transporte para seu deslocamento, um direito que pode ser momentaneamente suspenso por decisão coletiva, por causa de um atraso repetido ou de uma briga...
A metodologia de trabalho do Buscapé tem como referencial o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), sobretudo no que se refere à exploração do trabalho infantil e abuso sexual, problemas intensificados em Salvador no período de verão. Mas as crianças e adolescentes não só têm seus direitos violados, como também os desconhecem, bem como os seus pais. É o que confirma Luis Ailton, de 14 anos: “A maioria das pessoas não vê o trabalho doméstico como exploração. Agora vejo que minhas irmãs foram vítimas do trabalho infantil. E o pior que com o apoio da minha mãe que não tinha idéia, assim como eu, do que estava ocorrendo”.
É esse desconhecimento que motivou a Associação Vida Brasil a desenvolver, em 2004, um intenso trabalho de releitura do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) com 40 jovens do Buscapé, que participaram da criação, publicação e divulgação de 8000 cartilhas sobre o tema. Sob o título “Sou Buscapé, sou Cidadão”, a publicação obteve uma grande repercussão em Salvador, sendo solicitada por diversas organizações sociais e pelo poder público por constituir-se uma referência pedagógica importante de conscientização das crianças e dos adolescentes sobre seus direitos. “O ECA não é apenas uma lei. É uma garantia de vida digna para os jovens que não têm oportunidade de ser respeitados como cidadãos” avalia Lucas Santana, de 17 anos, na conclusão do trabalho... O material também foi solicitado e enviado para organizações civis e públicas em diversos municípios baianos, e em outros estados.
“A participação das crianças e dos adolescentes não só contribui para construção do trabalho, mas dá sentido ao projeto... Eles são o centro do processo: adquirem uma consciência crítica acerca do seu universo, não como objetos, mas como sujeitos desse processo” , declara Anunciação Silva, coordenadora pedagógica do Buscapé. Ela cita dois exemplos significativos dos esforços permanentemente produzidos na implementação de uma pedagogia participativa: de um lado a concepção coletiva de projetos envolvendo, a partir de 2004, crianças e jovens, pais, educadores e entidades parceiras, e do outro a votação anual do tema de carnaval.
O tema carnavalesco orienta todas as atividades nos meses de verão até o desfile de carnaval, e sua escolha, a partir do terceiro desfile carnavalesco, em 2000, passou a ser responsabilidade das crianças e dos adolescentes. Assim, em 2001, após dois meses de debates nas sedes dos diversos parceiros, 27 temas foram indicados pelos meninos e meninas. O tema vencedor foi debatido e escolhido numa votação em dois turnos, numa assembléia geral com 98 crianças e adolescentes. A indicação dos temas, a sua defesa, a definição de critérios de escolha e a própria votação denotaram a preocupação do voto consciente por parte dos jovens, numa época em que aconteciam as eleições municipais no país.
Os temas refletem antes de tudo a visão atual e futura que os membros do Buscapé têm do seu mundo e do seu próprio universo, incluindo a do projeto. Dizem que “O Brasil é um menino de rua que vende balas nas esquinas do mundo” (2000), mas que “O Brasil com consciência será um país sem violência” (2003). E clamam: “Meio ambiente equilibrado, seres humanos vivos e preservados” (2004). Convidam ainda a criança para que “Troque sua arma por um instrumento musical” (2001), e apontam um caminho: “Buscapé busca a Paz. Guerra nunca mais” (2005).
Arte e transformação social
Pelo uso de certas palavras (violência, arma, balas, guerra...), os temas carnavalescos, expressam uma realidade cruel, mas a escolha da arte para tratá-los no processo educativo garante uma dimensão de esperança e a possibilidade de mudança. Cantando, dançando, tocando, os membros do Buscapé expressam suas idéias acerca da situação social e dos seus sonhos para o futuro. Segundo Gutemberg, educador de música do projeto, “... a Arte no Buscapé constitui um meio para atingir fins sociais. Com objetivos bem definidos, ela tem um papel fundamental que consiste em estimular o potencial de qualquer um, em promover sua auto-estima, além de contribuir para percepção do mundo e para formação integral da pessoa. Por meio da Arte, a criança passa a desenvolver seu senso crítico e a perceber seu potencial de transformação social... Permite ainda o desenvolvimento de vínculos sociais, e dá consistência à noção de conjunto e de harmonização entre as pessoas. Acaba dessa forma complementando a escola, e amenizando os problemas de relacionamento, de aprendizagem e de evasão escolar”.
A Arte no Buscapé é utilizada de forma universal, para e por todos e todas. Os critérios de seleção dos meninos e meninas desta forma não incluem o nível de conhecimento musical ou a aptidão, mas a vontade, o interesse, a necessidade expressada pela própria pessoa ou pela organização que a encaminha... Algumas crianças ou jovens podem revelar uma vocação, e são apoiados. Um deles, por exemplo, foi encaminhado e matriculado num curso da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Mas o projeto Buscapé não busca a profissionalização. E se numa visão profissionalizante, a qualidade e a quantidade da produção musical constituem a principal finalidade, aqui eles aparecem como “indicadores de resultados”: são importantes e comprovam o êxito do processo de aprendizagem, mas não são um fim em si mesmo.
Os educadores, na sua maioria, são artistas e tornaram-se educadores. E essa herança sem dúvida tem contribuído para que a Arte, mesmo utilizada como ferramenta a serviço da transformação social, seja abordada profundamente e não superficialmente. Nesse sentido, a equipe pedagógica tem se preocupado em realizar um trabalho de investigação artística. É o que mostra, por exemplo, a diversidade musical e rítmica como também instrumental, presente nas oficinas de música. A banda formada, que anima a cada ano o desfile carnavalesco, toca ritmos de todo Brasil e mais especificamente de todo o Nordeste, usando instrumentos de percussão variados, industrializados e artesanais, tradicionais ou inventados, conhecidos ou esquecidos...
Por outro lado, a pressão dos arte-educadores, para não dizer dos “educo-artistas” e a necessidade de trabalhar a imagem do Buscapé como parte de uma estratégia de sustentabilidade, tem levado o projeto a investir no fortalecimento de produtos e grupos artísticos de qualidade, e apresentando um diferencial. Assim foi criada, em 2002, uma “pandeirada”, um conjunto de quinze instrumentistas mirins tocando pandeiro e cantando. A “pandeirada”, que já percorreu a cidade no quadro de apresentações, chamou a atenção de muitas pessoas. Vários músicos baianos já ressaltaram a singularidade da proposta musical.
São muitos os artistas que têm se juntado ao projeto e colaborado, eventualmente ou de forma mais sistemática, com o trabalho do Buscapé. O músico e musicólogo Bira Reis participou da idealização do projeto e ministrou aulas de fabricação de instrumentos, além de orientar as bandas musicais. O percussionista Sérgio Otanazetra também ministrou aulas, levando à criação de bastões musicais de influência indígena, a partir de cabos de vassouras, pregos e tampas de garrafa, que foram utilizados pelo grupo de dança no segundo ano do desfile do Buscapé... Em 2000, o artista plástico Bel Borba aceitou o desafio de pintar, junto com um grupo de crianças e adolescentes e parte da equipe pedagógica, um conjunto de 750 camisetas. A performance durou 20 horas sem interrupção, e resultou num trabalho inédito. Pela primeira vez, foliões de um bloco carnavalesco apresentavam fantasias, todas diferentes uma das outras. O dançarino Jorge Conceição, por sua vez, além de ter atuado como coordenador pedagógico do projeto durante três anos, tem desenvolvido aulas de dança inclusiva, envolvendo pessoas com e sem deficiência e promovendo sua interação. E a cantora Carla Cristina, ex-vocalista da banda As Meninas, tornou-se madrinha do projeto em 2004, no intuito de mobilizar e ampliar as fontes de recursos locais...
Educação para diversidade
“Eu gosto muito do Buscapé. Gosto da fabricação de instrumentos. Gosto muito da banda. A banda mudou: esse ano, tem novos alunos, e isso é legal! Fico feliz quando toco. Me sinto bem quando a gente se apresenta. Me sinto importante. Antes, errava muito, mas agora toco certinho. No Buscapé, todo mundo pode se divertir, mesmo quem é aleijado, mudo ou maluco! Qualquer pessoa pode participar. Na festa, eu cantei, o cego cantou, todo mundo cantou...”
Lázaro tinha mais de 20 anos, em 2001, quando deu esse depoimento. Presente no Buscapé a partir do segundo ano do projeto, Lázaro quase não falava quando chegou: por apresentar uma deficiência mental, ele foi abandonado pela família quando era criança, ficou perambulando durante anos nas ruas da cidade, sofrendo humilhações e violências de todas as ordens, antes de ser incluído no Projeto Ibeji que o matriculou na escola pública e o encaminhou para o projeto Buscapé. Suas palavras, nem sempre politicamente corretas, traduzem no entanto a diversidade humana e a valorização das diferenças ocorrendo no projeto, além de revelar o processo de crescimento pessoal e de inclusão social do qual foi sujeito, assim como tantos outros.
“Buscapé foi o único projeto que acolheu meu filho por ser uma criança, e não uma pessoa com deficiência” afirma Dona Lícia , mãe de Jonas, de 13 anos, que possui Síndrome de Down. “Logo no primeiro ano, me senti estranha, me juntando aos portadores de deficiência, que para mim não tinham valor nenhum. Com as oficinas e as aulas, vi que estava enganada, e hoje convivo com os amigos do CRPD, os surdos e os cegos” acrescenta Shirneide , de 17 anos.
A valorização da diversidade de fato constitui o eixo central do projeto Buscapé, e sem dúvida seu grande diferencial: motivou sua criação assim como orientou seu desenvolvimento. Mas essa educação para a diversidade não busca de nenhuma forma a padronização dos comportamentos e das personalidades. Ao contrário, a diferenciação das identidades revela-se fundamental. Trata-se, como diria o autor Boaventura de Souza Santos, da busca de um “multiculturalismo emancipatório” -e não “reacionário”- no qual o direito a igualdade é complementar do direito à diferença. “As pessoas e grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza”
A descoberta e o respeito ao Outro sempre orientaram as atividades, num diálogo permanente entre identidade e alteridade. Já no segundo ano do projeto, quando o tema carnavalesco era “Os direitos do Índio e da Floresta”, jovens Índios Cariris, do sul da Bahia, foram convidados para trocar suas experiências de vida com as crianças e os adolescentes do Buscapé. Outro encontro relevante aconteceu num seminário sobre sexualidade, onde estiveram presentes ouvintes e surdos. Os adolescentes surdos evidenciaram, por meio de sua participação, o quanto é fundamental o respeito a sua identidade de grupo, e a sua própria língua, a Língua Brasileira de Sinais...
Nas oficinas, a inclusão de pessoas com e sem deficiência começou com a fabricação de instrumentos, na qual, reunidos numa mesma sala, uns e outros cuidavam individualmente do seu instrumento. Mas a construção realmente coletiva de um produto artístico começou a se manifestar nas aulas de dança. Rap e dança contemporânea, misturando teatro e expressão corporal, contribuíram para que as pessoas com deficiência mental ou física, usando das suas próprias características pessoais, pudessem se libertar, se expressar e dialogar.
O mérito e a grandeza do projeto Buscapé não se resumem ao atendimento de crianças e adolescentes em situação de risco, mas a sua capacidade de apontar caminhos. Buscapé revelou-se uma referência de processo democrático e pedagógico para construção de uma sociedade verdadeiramente plural. Aqui, o reconhecimento do Outro como igual e diferente ao mesmo tempo, e antes de tudo como sujeito de direitos, tornou-se uma prática para todos os participantes do projeto. Cresceram e crescem desta forma, crianças, adolescentes e adultos que buscam construir um mundo melhor, e acreditam na justiça e na cidadania. Eu sou um deles.
Damien Hazard
Coordenador da VIDA BRASIL (unidade Salvador) e co-coordenador do projeto Buscapé
BIBLIOGRAFIA
BUSCAPÉ - Jornal Buscapé – Informativo do Projeto Buscapé n2,
“O que você acha do Buscapé?” - 02/2002
BUSCAPÉ - Cartilha “Sou Buscapé, sou cidadão.
Uma releitura do Estatuto da Criança e do Adolescente” – 2004
BUSCAPÉ - Folder Buscapé – Todo Mundo vai ao Circo – 01/1998
Fórum Social Mundial 2003 – Conferências, Vol.1 – Direitos e
diversidade, palestra de Boaventura de Souza Santos - 2003
VIDA BRASIL - “Buscapé: um olhar sobre sua trajetória”
Vida Brasil / Oimba – 29/05/2001
VIDA BRASIL - Relatórios anuais de atividades – 2000, 2001, 2002,
2003 e 2004
22/12/2006