A teática da cidadania começa com uma palavra. Teática = Teoria + Prática. Extraído da ciência Consciênciologia, a teática, como fusão de duas palavras, consiste em fundir uma com a outra, em considerar ambas indissociáveis... Significa priorizar a vivência, e tê-la como base da elaboração teórica, como também viver à luz das nossas teorias, dos nossos princípios e valores.
A Vida Brasil nasceu das experiências e reflexões de profissionais e militantes engajados em projetos sociais em Salvador e em Fortaleza. Reunidos em diversas ocasiões em 1996, dividiram seus sonhos e conseguiram construir coletivamente conceitos, valores, entendimentos e princípios para o desenvolvimento de ações sociais, culturais e políticas. A teática apareceu com um desses princípios. Vamos valorizar e apoiar indivíduos e grupos socialmente excluídos? Reivindicar uma cidadania conquistada? Vamos priorizar então uma metodologia participativa, que faça desses grupos os atores e co-autores dos projetos, co-produtores nas suas diversas fases, da sua idealização até sua execução e seu monitoramento, avaliando sistematicamente para orientar as atividades planejadas. Vamos lutar contra preconceitos na sociedade? Vamos começar identificando-os em nós mesmos... E praticar uma política de recursos humanos que leve em conta critérios raciais, de gênero, deficiência, situação socioeconômica... Vamos defender um ideal de sociedade inclusiva, democrática, participativa, acessível? Vamos praticar a inclusão então, buscar a acessibilidade da nossa própria casa, aprender a dividir o poder e as responsabilidades na nossa equipe, valorizar a participação, o diálogo, a democracia interna...
A teática não se resume só a viver seus valores, como também a refletir, analisar e teorizar. Viver uma experiência, um acontecimento, uma temática, e confrontá-los com nossas convicções, desconfiando, inclusive, do entendimento comum ou do intelectualismo dogmático e de qualquer conceito que não é mais questionado... Democracia por exemplo... Na sua busca de valorizar pessoas e organizações, a Vida Brasil descobriu o contexto democrático em formação. E participou diretamente da sua construção, mobilizando e qualificando pessoas e organizações, coordenando negociações, apresentando projetos de lei, participando da criação de instrumentos participativos, investindo na participação nesses espaços de construção democrática: conselhos de políticas públicas, conferências, fóruns... A téatica da cidadania fez a Vida Brasil evoluir nas suas ações e entendimentos, quanto às formas de consolidação da democracia... Acredita na democracia participativa no Brasil, aposta, investe, mas não deixa de evidenciar múltiplos entraves na eficiência desta participação e destes instrumentos.
A vivência assim provoca nosso senso crítico e transforma nossas teorias, cada vez mais próximas da nossa realidade... A teática funde nosso futuro projetado com o nosso presente vivido, nossas perguntas com nossas afirmações, sem deixar, ao mesmo tempo, de formular umas e outras. É uma forma de enxergar a vida, buscando permanentemente explicações e soluções às problemáticas sociais enfrentadas. O filósofo inglês Navalha de Occam, no século 14, afirmava que “a melhor explicação científica sobre qualquer fato, situação, evento ou fenômeno, não é a mais complicada ou a mais complexa, e sim, a mais simples que consegue tomar em conta a maior quantidade de variáveis. É essa hipótese que permanecerá até que seja refutada por outra explicação ainda mais simples”.
A teática consiste em produzir conhecimento. E a teoria tem sentido, na palavra teática, só se for servir de suporte diretamente para prática. Teática, desta forma, é quando adquirir um conhecimento, querer repassá-lo, divulgá-lo. É mostrar o exemplo, se questionar e aceitar que pode errar, para aprender a acertar. É buscar a formação pessoal e de grupo baseada na própria experiência e na troca de experiências... Com esse objetivo, o trabalho da Vida Brasil conseguiu se tornar referência nas questões de segurança alimentar, de acessibilidade, de educação inclusiva, de educação e organização do consumidor e de economia solidária.
Nessas experiências, o sentido do grupo concentra-se na sua própria capacidade de ser produtivo, de constituir um crescimento para todas e todos, baseado no respeito e nas aptidões de cada um. É a transformação dos valores individuais concomitante à transformação social: é o desafio de, juntos, homens e mulheres, negros e brancos, crianças, adolescentes e adultos, pessoas com e sem deficiência, vivenciarmos o exercício do exemplo. Só por isso vale o esforço de querer transformar tudo em teática. E, mesmo que seja impossível colocar em prática todas as teorias, aumenta o sentimento íntimo de responsabilidade, em ser ou buscar ser teático, ou teática... E, por isso, a téatica não é nossa, nem dos milhares de pessoas que lhe deram sentido nesses 10 anos de vida da Vida Brasil. A teática, definitivamente, é universal !
Patrick Oliveira e Damien Hazard - coordenadores gerais da Vida Brasil
04/02/2007