O senegalês Alain Pascal Kaly é graduado e mestre em sociologia pela Universidade Federal da Bahia, doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e pós-doutor pelo departamento de História da Unicamp. Kaly é presidente da ONG Vida Brasil. Nesta entrevista, ele fala sobre suas expectativas com o nascimento da Vida Brasil France e cita os principais desafios que a nova associação irá enfrentar.
Confira!
VB- Quais são suas expectativas com relação ao nascimento da Vida Brasil France?
APK- Minhas expectativas são as mesmas de um pai, uma mãe, um irmão, uma irmã, amigos e amigas que estão esperando um filho ou uma filha nascer. No contexto africano tal espera é menos dolorosa, porque desde a gravidez, parentes próximos jogam búzios para saber sobre o destino da criança. Acredita-se que cada pessoa que nasce tem um papel para desempenhar neste mundo dos vivos. A criança será também o elo entre os dois mundos: o dos vivos e o dos antepassados, por isso esta criança se beneficia duplamente da proteção e cuidados dos dois mundos. Mas, diante da complexidade do mundo, às vezes os búzios não conseguem prever tudo. Olhando bem, já temos algumas idéias sobre o vir a ser da VBF, à medida em que o projeto foi longamente pensado e as pessoas envolvidas são altamente qualificadas e, sobretudo, sensíveis aos temas do nosso interesse.
A minha maior expectativa é que possa haver uma transferência de saberes sobre algums temas do Brasil para a França e porque não, para toda a Europa. Temos muitas coisas para ensinar, sobretudo no que diz respeito ao lidar com crianças em situação de risco social, pessoas mais velhas e pessoas com deficiência. Uma outra contribuição são os debates sobre políticas públicas em Direitos Humanos a partir da ótica da pós-colonialidade.
VB- Para você, quais serão os maiores desafios dessa nova empreitada?
APK- Apesar de termos longa experiência com o trabalho social, os desafios vão ser numerosos. Primeiramente, será preciso que todos nós da Vida Brasil saibamos e tenhamos certeza que temos muito a contribuir com os programas da Vida Brasil France. Será preciso nos despir das nossas roupas do complexo de inferioridade sem sermos arrogantes para sentarmos à mesa para trocar. Entendo por trocar o fato de dar e receber ou receber e dar num intercâmbio entre iguais. Será necessário que os membros da Vida Brasil France tenham clareza que temos algo a trocar, a sugerir e a contribuir porque em muitos setores já somos especialistas. É importante, ainda, que não vejamos a associação como um tipo de torneira de dinheiro para irrigar a Vida Brasil.
É bom destacar que a Vida Brasil France nasceu no momento certo, pois o avanço da tecnologia de comunicação reduziu bastante as distâncias físicas e também mentais. Mas, tomara que saibamos aproveitar todos os nossos capitais humanos e simbólicos para consolidar esta nova empreitada.
15/01/2009